Candidatura barrada e condenação: quem é o falso biomédico preso por morte
O homem suspeito de ter feito um procedimento estético facial em uma idosa que morreu após a intervenção em Santa Isabel, na Grande São Paulo, já foi condenado por falsidade ideológica e tentou se candidatar a vereador pelo município onde ocorreu a morte. Jonatas Davi Rodrigues, que utiliza o nome comercial de Pietro Rodrigues, está preso. A defesa dele diz que o cliente provará sua inocência.
Perfil e redes sociais
Nas redes sociais, Jonatas, de 31 anos, se apresenta como biomédico. No Instagram pessoal, o homem escreve na biografia “biomédico”, já no perfil da clínica, que leva o seu nome, está “biomedicina”. A Polícia Civil de São Paulo afirma que ele não tem registro para atuar como profissional da área e o Conselho Federal de Biomedicina também negou que ele tenha registro.
No perfil profissional, o homem publicava resultados dos procedimentos que realizava. “Resultado imediato do protocolo anti flacidez na área do ‘bigode chinês’. Não cirúrgico, sem corte, sem dor”, escreveu em uma das postagens. Em outra publicação, ele indica buscar o melhor hoje porque a vida é curta e o tempo voa: “Resultado imediato do tratamento facial contra flacidez. Não cirúrgico, sem corte, sem dor, sem nenhum fio”.
Em outra postagem, em 2022, o homem diz que é caiçara, atende mais de 4.240 clientes ao ano e já foi atendente de padaria. Ele afirmava ter unidades da clínica em Santa Isabel (SP), Jacareí (SP), Mogi das Cruzes (SP) e Anápolis (GO). “Você sabia que antes eu vendia pão? A vida milionária uma hora chega”, disse na legenda, usando emojis de um rosto sorrindo e de notas de dinheiro.
Ele também postava fotos e vídeos de viagens e shows no seu perfil pessoal do Instagram. Entre os lugares que ele visitou está o Rio de Janeiro e Ilhabela (SP).
Condenação por falsidade ideológica
Homem já foi condenado pela justiça paulista por falsidade ideológica e uso de documento falso. O processo teve início em 2014. A pena de reclusão a ser cumprida por Jonatas seria de 1 ano e seis meses, porém, ela foi convertida em medidas restritivas e pagamento de multa.
Em 2024, Jonatas tentou se candidatar ao cargo de vereador de Santa Isabel pelo Republicanos. A tentativa, porém, foi negada pelo TRE-SP (Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo) em razão da condenação. Ele entrou com recurso contra a decisão, mas ela foi mantida, por votação unânime, em outubro de 2024.
A relatora do caso, a desembargadora Maria Claudia Benotti, argumentou que o ano de cumprimento da pena do homem foi em 2020. O homem havia alegado no pedido que o trânsito em julgado da sentença condenatória — quando não cabe mais recurso — ocorreu em 2016, portanto, o prazo a ser contado deveria ser este ano e, não, 2020. A versão não foi corroborada pelo judiciário.
Jonatas também é citado em um processo de calúnia de 2024, que tramita no Foro de Santa Isabel (SP). Não há detalhes do que teria acontecido para a abertura da ação. No último andamento, em outubro, a juíza Cláudia Vilibor Breda autorizou a pesquisa do atual endereço de Jonatas no SISBAJUD (Sistema de Busca de Ativos do Poder Judiciário), do CNJ (Conselho Nacional de Justiça).
Entenda o caso
Idosa realizou procedimento estético no dia 25 de novembro. A mulher, identificada como Maria Ribeiro Baptista, não informou à família que passaria pela intervenção. Na véspera, uma das filhas de Maria viu no celular da mãe a confirmação de um serviço na clínica de Pietro. A filha pediu que ela antes consultasse a outra filha, que é médica. Segundo relato de uma das filhas à polícia, a idosa afirmou que cancelaria o agendamento.
No dia 25, Maria cancelou um compromisso com o filho e, ao encontrá-lo horas depois, apareceu com hematomas no rosto. Ela afirmou que havia batido o rosto em um pilar. O filho estranhou, avisou a irmã, que desconfiou que a mãe tinha realizado o procedimento. No dia 26, Maria confirmou à filha que fez a intervenção e que foi medicada com dois remédios, sendo um corticoide e outro para dor.
Dois dias após o procedimento, Maria apresentou dores no estômago, teve vômitos e foi socorrida pela filha. A mulher deu entrada na UPA de Santa Isabel em parada cardiorrespiratória. Apesar das manobras de reanimação, ela não resistiu e morreu. Ainda não se sabe a causa da morte.
Após o óbito, a família foi à delegacia para registrar um boletim de ocorrência. Inicialmente, a morte foi registrada como suspeita, mas agora, após as investigações, o caso é tratado como homicídio doloso – quando há intenção de matar ou assume o risco de produzir a morte.
Procedimento de R$ 1.500
Segundo a delegada Regina Campanelli, Jonatas afirmou que idosa o procurou para realizar o preenchimento de marionete. A intervenção introduz substâncias na pele, com auxílio de injeções, para melhorar a aparência das linhas que vão dos cantos da boca até o queixo.
A paciente pagou R$ 1.500 pelo procedimento. A polícia acredita que o suspeito aplicou ácido hialurônico na idosa. Mas, por meio das conversas do agendamento da consulta, os investigadores descobriram que a contratação foi para a inserção de fios na pele, sem mais detalhes. Ainda não se sabe qual procedimento exato foi realizado. A delegada aguarda o resultado do laudo pericial. O homem não é inscrito na autarquia. O órgão ressaltou que, para atuar nessa área, é necessário ter habilitação em Biomedicina Estética e ter situação regular no conselho de sua jurisdição.
O que diz a defesa
Advogado afirma que cliente colabora com a Justiça e vai provar inocência. “A defesa manifesta sua solidariedade à família da Sra. Maria Ribeiro Baptista e reafirma sua plena confiança na análise técnica e imparcial das provas, convicta de que, ao final, ficará demonstrado que Jonatas não deu causa ao óbito da Sra. Maria, sendo restabelecida a verdade dos fatos”, disse o advogado Erick da Silva em nota, que também declarou que pretende recorrer da decisão de prisão temporária.