Livro analisa obras sobre o “identitarismo de esquerda”

Professor titular da UFBA aponta os equívocos em reflexões produzidas por intelectuais progressistas nos últimos dez anos

“A esquerda agora só trata de raça, gênero e sexualidade. Os ativistas das identidades subalternas estão cooptados pelo neoliberalismo e pelo narcisismo e só pensam em si e em seus particularismos. O que temos agora é um “identitarismo de esquerda” que pensa as identidades de forma igual aos fascistas. Precisamos voltar aos ideais universalistas”. Qualquer pessoa que dialoga com ativismos sociais já deve ter se deparado com algumas dessas ideias nos últimos anos, defendidas por importantes intelectuais progressistas. Mas quem começou a produzir essas ideias? Por que elas surgem nesse momento histórico? Como os intelectuais sustentam as suas reflexões? Essas são algumas das perguntas respondidas pelo professor titular da UFBA, Leandro Colling, no livro Os anti-identitários, a ser lançado pela Hucitec Editora no dia 18 de novembro, às 17h, no Cine Satyros Bijou, em São Paulo. Em Salvador, o lançamento irá ocorrer dia 1 de dezembro, no IHAC/UFBA, às 17h.

Colling sustenta que, após a primeira eleição presidencial de Donald Trump, em 2016, intelectuais progressistas começaram a defender que a esquerda teria perdido o pleito em função de sua excessiva preocupação com as identidades negras e da diversidade sexual e de gênero. A partir daí, vários livros passaram a ser escritos para atacar os ativismos, acusando-os de um excessivo essencialismo. É assim que surgem categorias acusatórias como “wokismo” e “identitarismo”. Em sua pesquisa, Colling realiza uma cartografia de 25 dessas produções, entre livros traduzidos no Brasil e diversas produções locais.

“O objetivo foi a de apresentar esses livros e a de descontruir as suas principais ideias. Na minha leitura, existem vários equívocos nessas obras. A novidade do neoliberalismo, por exemplo, não é a cooptação das identidades subalternas, mas a sua nova aliança com a extrema-direita para atacar a democracia e, por tabela, os direitos humanos”, destaca o autor. Colling também argumenta que o uso do narcisismo para atacar ativistas da diversidade sexual e de gênero tem uma longa história que envolve a patologização da homossexualidade. “Conhecemos bem essa história, voltaram a nos patologizar socialmente com essa ideia”, alega.

A falsa assimetria entre ativistas de extrema direita com os de esquerda é outro equívoco apontado pelo autor nas obras dos intelectuais de esquerda analisados. “O próprio uso da palavra identitarismo de esquerda evidencia isso. Essa categoria era usada apenas para se referir a ativistas supremacistas brancos franceses e agora é transportada automaticamente para ativistas de esquerda. É um equívoco brutal aproximar esses dois campos desta forma”, defende Colling. Para ele, os ativistas de direita lutam para manter os seus privilégios baseados na branquitude e na cisheteronorma, enquanto os de esquerda lutam por reconhecimentos ainda inexistentes para as suas vidas.

Colling também defende que os ataques às identidades subalternas, advindas tanto da extrema direita como dos intelectuais progressistas que integram a cartografia, podem ser explicados por vários motivos. Dentre eles, destaca um processo de subjetivação atual que é marcado por uma profunda dessensibilização para com os diferentes e uma disputa epistemológica sobre quem detém o conhecimento sobre as identidades negras e da diversidade sexual e de gênero. “Muitos intelectuais de esquerda alegam que o identitarismo foi criado dentro das universidades pelas perspectivas negras, decoloniais, trans e queer. O que eu demonstro é quase o contrário: essas perspectivas é que questionaram os saberes desses intelectuais que não suportam ter suas verdades abaladas e, por isso, passaram a produzir uma perspectiva anti-identitária em nossas universidades”, defende.

Ao mesmo tempo, Colling também defende que ativistas das identidades subalternas não estão isentos de críticas. “Eu sempre fui um crítico das identidades quando elas são usadas de forma essencialista. Mas o que vemos agora é outra coisa, é um ataque. Precisamos recuperar a crítica dentro de uma perspectiva pós-identitária e não migrar para uma teoria anti-identitária”, frisa. Para o autor, uma das críticas reside naquilo que ele nomeia de “essencialismo primário”. “Os movimentos sociais de base sofreram muito nas últimas décadas, perderam terreno e deixaram de formar militantes. Enquanto isso, emergiu a figura do influencer que, muitas vezes, viraliza ainda no início de sua formação militante. É por aí que se explicam alguns equívocos. Também não dá pra pensar os conflitos identitários atuais sem uma boa análise do papel das plataformas em nossas vidas”, sugere Colling.

No lançamento em São Paulo, a obra será comentada por Sofia Favero, deputada estadual eleita na última eleição pelo PSOL, e por Marcelo de Trói, professor da USP. Em Salvador, os comentários ficarão a cargo dos professores Vércio Gonçalves Conceição (UNEB) e Leandro de Paula (UFBA) e da professora Wlamyra Albuquerque (UFBA). A pesquisa que originou o livro foi realizada em estágio de pós-doutorado na PUC-SP, supervisionada por Suely Rolnik. O livro também se encontra em pré-venda no site https://lojahucitec.com.br/produto/os-anti-identitarios-leandro-colling/.

O que: lançamento do livro Os anti-identitários, de Leandro Colling
Quando e onde: 18 de novembro, às 17h, no Cine Satyros Bijou (Praça Roosevelt, 172, Consolação – SP) e 1 de dezembro, às 17h, no vão livre do IHAC/UFBA (campus de Ondina).
Entrada livre

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